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Notas Paralelas

Um espaço para escrever sobre coisas e acontecimentos que me despertam

Notas Paralelas

Um espaço para escrever sobre coisas e acontecimentos que me despertam

16.Jan.18

Sempre chegamos ao sítio aonde nos esperam

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O filme sobre José e Pilar é belíssimo, a relação entre eles era belíssima.

O filme retrata o período final da vida de Saramago já depois de ter ganho o prémio Nobel. Neste período José e Pilar viviam em Lanzarote, onde José ainda ia escrevendo, é nesta altura que escreve a viagem do elefante e, em certo momento do filme é possível ver Saramago a conversar com uma pessoa, que presumo ser um assistente sobre o comportamento dos elefantes, como por exemplo se os elefantes dormem de pé ou sentados, detalhes que segundo Saramago faziam toda a diferença. Saramago escrevia duas páginas por dia, era o seu objectivo, depois Pilar, ainda no mesmo dia, traduzia essas páginas para espanhol. Para além das traduções das obras do marido, Pilar dedicava-se à biblioteca José Saramago localizada perto de casa deles em Lanzarote. Esta biblioteca foi inaugurada por esta altura e lá, Saramago recebia visitas de pessoas que iam lá visitá-lo propositadamente, desde grupos de estudantes italianos de literatura, ou outros artistas, ou até representantes do poder político, como foi o caso do ministro da cultura de Espanha. Foi organizada uma grande exposição sobre a vida e obra de José, na qual nenhum membro do governo português se fez representar, facto elucidativo da relação entre José e Portugal, uma pena para Portugal, claro, porque José esse, era imenso.

José passou os últimos anos da sua vida a viajar pelo mundo, a receber todas as honras possíveis e imaginárias, Pilar, sempre o Pilar para cuidar da sua agenda e das suas especificidades pessoais. José não gostava de receber essas honras, Pilar adorava-o. José acedia a participar, em parte para fazer a vontade a Pilar e para a fazer feliz, pois Pilar fazia-o feliz. Tal como uma vez ele disse, que se não fosse ela, ele seria muito mais velho do que era. Ela tem uma alegria contagiante e isso fazia-o estar sempre bem disposto.

Sempre gostei da personalidade de José Saramago, sempre me intrigou a forma como ele impunha a sua presença, ele sabia que era uma autoridade e que tudo o que saísse da boca dele seria interpretado quase como Lei. José começou a escrever já depois dos 55 anos e ainda foi a tempo de ganhar o prémio Nobel, incrível! Facto para o qual contribuiu a sua imaginação única, prodigiosa e lúcida.

O dia a dia em Lanzarote era suave, entre as montanhas e o mar, entre livros e saraus. Pilar contribuiu para que José tivesse um fim de vida tranquilo e honroso, Saramago morreu como um eremita e como um líder público, tudo ao mesmo tempo. Pilar, aproveitou a notoriedade do marido para se envolver em causas políticas, para se promover pessoalmente, tal era perfeitamente aceitável, pois Pilar é uma mulher que pensa pela sua própria cabeça, com personalidade muito forte e com uma incansável e comovente dedicação a José.

Tenho pena de Portugal nunca ter estado à altura de Saramago.